Saúde Integral

07/10/2020 08h00

A comida do futuro será a comida do passado

Comia-se menos carnes e mais vegetais. Menos comidas em embalagens e mais em cascas. E predominantemente alimentos orgânicos.

Por Vera Mari Damian

PROSTOOLEH/FREEPIK/BE
Alimento 01

Comida do futuro

pandemia levou muitas pessoas a (re)descobrir as cozinhas de suas casas. Foi como uma janela que se descortinou para exercitar o relacionamento com forno e fogão, se aventurar em novas receitas e/ou praticar o gesto de amor na elaboração de alimentos.

A necessidade de manter o corpo imune especialmente à nova doença despertou mais pessoas sobre a importância de comer de forma saudável, buscar alimentos orgânicos e conferir (rigorosamente) os rótulos de produtos embalados. 

Os mais conscientes buscaram receitas para aproveitamento integral dos ingredientes e a redução de desperdícios. Os ainda mais conscientes voltaram o olhar para cozinhas vazias e passaram a doar cestas básicas. 

A nova dinâmica soou quase como um retorno ao tempo das avós. E muita gente gostou. Alguns se aventuraram até a plantar, no quintal ou vasos em apartamentos. Os sites sobre hortas caseiras estiveram entre os mais acessados nos primeiros meses da pandemia. Um jeito de voltar às origens, de aprender agricultura, de conhecer sobre o ciclo da vida e de onde vêm os alimentos.

CONSCIÊNCIA

Cresce a consciência que, para ter um corpo com imunidade e para construir sociedades sadias, a comida do futuro terá que ser a comida do passado. Comia-se menos carnes e mais vegetais. Menos comidas em embalagens e mais em cascas. E predominantemente alimentos orgânicos.

A produção e o processamento industrial dos alimentos nas últimas décadas trouxeram consigo um rastro de intoxicações e envenenamentos causadores de doenças e de desnutrição. A própria obesidade pode estar associada à intoxicação que impede o corpo de absorver os nutrientes, impelindo a pessoa a comer mais e mais para saciar uma “fome crônica”.

O modo de produção em larga escala à base de agrotóxicos e adubos químicos, - advogado como o método salvador para “matar a fome da população” - também não cumpriu seu papel. O Brasil, por exemplo, colherá em 2020 uma safra recorde de grãos de 251 milhões de toneladas. Significa mais de uma tonelada por habitante. Some-se a isto toda a produção de verduras, legumes, frutas e o abate anual de 46,33 milhões de cabeças de gado e de 5,81 bilhões de frangos.

A indústria alimentícia é controlada pelas mesmas corporações que controlam a indústria farmacêutica.  Uma nos envenena com seus "alimentos" e a outra nos vende a "cura" através dos remédios. O objetivo por trás de tudo é lucrar e não produzir alimentos.

ORGÂNICOS EM ALTA

O Rio Grande do Sul é referência no Brasil na produção de orgânicos. Temos a maior feira orgânica a céu aberto da América Latina, em Porto Alegre, a maior colheita de arroz orgânico do mundo, produzido pelos assentamentos do MST, e a capital Nacional da Agroecologia, em IPÊ, na Serra Gaúcha.

A produção e envase de alimentos orgânicos processados iniciou há mais de 30 anos e temos marcas tradicionais e confiáveis (algumas sob o comando da segunda geração), tais como Sítio Palmará, Aécia, Pérola da Terra,  Ecocitrus, Shambala (de gaúchos que se mudaram para Santa Catarina) e tantas outras. A própria certificação de selo orgânico é feita em Rede, de forma horizontal e colaborativa.

O consumo de alimentos orgânicos não para de crescer. A quantidade de feiras orgânicas e de lojas certificadas também. Em junho de 2019, as feiras ecológicas da Redenção, em Porto Alegre, foram reconhecidas pela Lei Estadual Lei nº 15.296 como de relevante interesse cultural do Estado do Rio Grande do Sul.

Cresce ainda o apreço pelo conhecimento de novas plantas para comer saudável e com diversidade, as chamadas PANCs (Plantas Alimentícias Não-Convencionais). Estima-se que existam 300 mil tipos de plantas comestíveis, mas utilizamos menos de 1% na alimentação.

Comer orgânico é revolucionário. Promove a saúde, desperta os sentidos para os sabores de verdade, valoriza o trabalho dos agricultores e amplia a nossa relação com a produção e elaboração de alimentos.

Como as avós já faziam.

Vera Mari Damian é jornalista e ambientalista.

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